Troca-Troca de Crush
Crônicas Urbanas


Ricardo
Antunes, Força Aérea Brasileira (FAB), participa do Grupo Experimental (GE) da
Academia Araçatubense de Letras (A.A.L).
O
calor de Araçatuba era desértico, Zezé recebia os amigos da escola para um dia
na piscina. Entre um mergulho e outro, entre uma competição de nado livre e
outra. A moça não sabia dividir a sua atenção, os gestos, os olhares e os
elogios eram todos para Adamastor.
As
amigas Caroline e Nadine, conhecidas pelo de ciúmes, até reclamaram um pouco,
mas a Zezé com uma voz melosa afirmava, Adamastor é meu Crush deste o primeiro
ciclo fundamental.
Olha
Zezé, o Luciano gosta de você e, é mais amigo da gente, não sei o motivo de ter
deixado ele de fora hoje, mas se você sente algo pelo nerd chato e moralista do
Movimento Bons Liberais que não foi a seu aniversário de
quinze anos ano passado por não ter condições para alugar o traje completo,
mesmo a gente oferecendo o dinheiro para ele, tome a iniciativa, sussurrava com
o dedo em riste Nadine.
Não
vou perder o bonde. Esse seu lance com o Adamastor é uma piada, você deve parar
com as indiretas e vá as diretas, fala logo para ele, ficar só olhando, não
saber a resposta e se vai rolar algo é extremamente patético, apontou sua amiga
Caroline.
Amigas
vou conversar com ele depois do café da tarde, minha mãe e meu pai passou a
manhã toda comprando coisas bem gostosas para nós e ele gosta de refrigerante
de laranja.
Olha
lá! Mamãe já está chamando. Levantou, foi até o pretendente pegou a toalha para
levar ao mesmo e gritou, vamos lá gente é hora de comer, não se demorem e por
favor se enxuguem. Ao entregar a toalha disse a Adamastor, olha eu gosto muito
de você e tenho em ti o único Crush.
Todos
ao redor da mesa farta, Zezé e Adamastor tomavam um refrigerante de laranja,
mesmo ela não sendo muito fã, os demais com aquela mania da geração saúde
estavam na companhia de suquinhos naturais.
Eis
então, a anfitriã olha para o pretendente e pede para trocar as suas garrafas
de refrigerante, ambos não faziam uso de copos a mesa. Ele sem entender nada
trocou com uma carinha de nojo, nas duas pontas da mesa os pais da moça olhavam
com um certo ar nostálgico. Até que a mãe dela olha para o seu esposo e argui. Lembra
quando a gente fazia troca-troca de Crush nos nossos piqueniques, Alfredo?
Pensei a mesma coisa amor, respondeu ele.
De
pronto a filha do casal, um tanto ressabiada com olhar fuzilante retrucou aos
pais. Nada a ver, esses comentários pervertidos. Já deu!
A
condenação dos jovens era nítida e Adamastor comentou ser necessário esquecer
coisas antimoralistas como esse tal de troca-troca, pois isso não é de bom tom.
Isso é coisa de esquerdista anti família, coisa de gente com objetivo claro de
deixar nossa bandeira vermelha por meio de narrativas de livros do MEC, falava
com a voz mais pausada como a de usual.
Antes
da conversa se estender, numa mágica sincronia, os pais de Zezé gargalham e
esclarecem:
– Crush era um refrigerante de laranja e ele raspava a
garganta quando ingerido. Essa geração de vocês com o este politicamente
correto, sem arcabouço. Vai afundar a História, até mesmo, a das marcas
comerciais. E viva as Estatais da China compradoras de nossas empresas.
Depois
disso, os olhares de Adamastor – o desentendido, vulgo vietnamita, um
direitista almejado do Palácio dos Soquinhos na mesa, passou a não mais querer
de forma alguma estar ao lado de Zezé, mais um círculo findado na vida do
estagiário de traje azul.


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